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quinta-feira, 7 de julho de 2011

A Mística Feminina e a Casa de Bonecas

"A mística feminina afirma que o valor mais alto e o compromisso único da mulher é a realização de sua feminilidade. Afirma ainda que o grande erro da cultura ocidental, no decorrer dos séculos, foi a desvalorização dessa feminilidade. Diz ainda que esta é tão misteriosa, intuitiva e próxima à criação e à origem da vida, que a ciência humana talvez jamais a compreenda. Contudo, por mais essencial e diferente que seja, de modo algum é inferior à natureza do homem; em certos aspectos pode até ser superior. O erro, diz a mística, a raiz do problema feminino no passado, é que as mulheres invejavam os homens, tentavam ser como eles, em lugar de aceitar sua própria natureza, que só pode encontrar realização na passividade sexual, no domínio do macho, na criação dos filhos, e no amor materno."¹

Betty Friedan

"Você foi sempre tão bom para mim. Mas nosso lar não passa de uma sala de brinquedos. Sou sua esposa-boneca, assim como em casa fui o brinquedo de papai e aqui as crianças são meus brinquedos. Eu me divertia quando você brincava comigo, assim como elas se divertem quando brincamos juntos. Isto tem sido o nosso casamento, Torvald...
Serei capaz de educar as crianças?... Há uma outra tarefa que preciso realizar antes. Preciso educar-me - e você não é o homem capaz de ajudar-me. Tenho que fazê-lo sozinha. E é por isso que vou partir agora. Preciso estar iteiramente só para compreender a mim mesma e ao que me rodeia. É por esta razão que não posso permanecer ao seu lado...
Creio que antes de mais nada sou um ser humano dotado de raciocínio, assim como você - ou pelo menos preciso tornar-me. Sei muito bem, Torvald, que a maioria das pessoas julgará que você tem razão e essa maneira de pensar se encontra nos livros, mas não posso contentar-me com o que a maioria diz, ou com o que dizem os livros. Preciso raciocinar sozinha, procurar compreender..."²

Henrik Ibsen



¹ Mística Feminina, de Betty Friedan (1963)
² Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen (1879)


Bah

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Entendendo os termos

Abaixo uma pequena explicação (espero que não tenha ficado confusa) diferenciando termos que são facilmente confundidos, como machismo, feminismo e etc. 



Machismo: entende-se por machismo a idéia de superioridade do homem (sexo masculino). Numa sociedade machista, existe grande desigualdades de direitos, posições sociais, etc., onde o homem possui uma certa superioridade em relação às mulheres (sexo feminino). Nota-se que o machismo não tem apenas relação de superioridade em relação aos direitos, mas em vários fatores. Alguns exemplos são as questões sexuais, linguísticas, posição social dentro do lar, etc. É importante notar que o nosso padrão de educação e construção social é extremamente machista, o que explica a luta feminista pelo direitos dos orpimidos (neste caso, a mulher).

Femismo: mesma idéia do machismo, porém empregado à mulher. No femismo, a mulher é superior ao homem, e neste caso, os homens são os oprimidos. É importante colocar que na nossa cultura, o femismo não existe, é apenas uma idéia. Não tem como existir o machismo e o femismo ao mesmo tempo, pois um se sobrepõe ao outro.

Feminismo: ideal de igualdade entre os sexos. Não tem nada a ver com superioridade baseado no sexo. Neste caso, a luta é por igualdade entre os homens e mulheres, desconstruindo a idéia de gênero. É importante colocar que a luta feminista não é somente da mulher, existem homens feministas, que concordam e lutam pelo mesmo ideal feminista.

Gênero: idéia de feminilidade e masculinidade. Esta idéia pode ser compreendida como um fator de construção social / cultural / político (...). Obviamente, o homem e a mulher possuem diferenças biológicas, como os órgãos genitais, por exemplo. Este fator biológico não explica as diferenças empregadas principalmente na infância onde as crianças são educadas de formas diferentes conforme seu sexo, como é feito pela idéia de gênero. A menina, por exemplo, cresce ouvindo contos de fadas e espera pelo príncipe encantado, veste-se de cor de rosa, brinca de barbies que ditam seu padrão de beleza, choram e não são reprimidas, são sensíveis. Os meninos brincam de guerra, luta, vestem-se de azul, são reprimidos no choro.

Sexo (masculino e feminino): Fator biológico de diferenciação entre os sexos. Homem pertencente ao sexo masculino e mulher pertencente ao sexo feminino. As diferenças, como já dito anteriormente, são caracterizadas pelas diferenças biológicas. Por exemplo, o homem possui um pênis e a mulher possui uma vagina.

Sexismo: Discriminação baseada no sexo. Aquele que diferencia as pessoas através do sexo, como se um fosse inferior ao outro. Neste caso, o argumento usado não tem caráter biológico, mas de gênero. Por exemplo: você não poder passar a roupa porque você é homem; você não pode ser motorista de ônibus pois não é coisa de mulher.

O assunto é amplo, é difícil explicar com poucas palavras. Mas espero que a explicação esteja entendível. 

"Existem poucos trabalhos que exigem possuir um pênis ou uma vagina. Todos os outros deveriam ser acessíveis a todos." (Florynce Kennedy)

Postado por Bah_

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A culpa é da mulher, óbvio!

Será que há algum mal em lutar por um mundo onde caibam vários mundos?”
Essa frase é um trecho da música “o sentir que violenta” da banda Cosmogonia. Me faço essa mesma pergunta todos os dias, principalmente quando me atrevo e tentar falar sobre assuntos que considero relevantes e sou extremamente reprimida. Um exemplo? Questionar discussões onde impera o senso comum e o desrespeito ao que é “diferente” e ouvir comentários do tipo: “nossa, mas tudo pra você tá errado”, ou “qualquer coisinha você critica”, e etc...
Ultimamente tem-se falado muito sobre questões como amamentação e estupro, vindos de comentários extremamente vazios de sentido de alguns apresentadores de programas de televisão, diga-se de passagem, CQC. Este programa sempre teve pra mim um caráter duvidoso, o que foi comprovado após eu ter acesso a este vídeo:



Como se não bastasse a piada de um dos apresentadores sobre a “mulher feia que tem que agradecer quando é estuprada”, agora é a vez da repressão às mulheres que usam de seu extinto materno para alimentar seu próprio filho.

Não é de hoje que percebo a inversão de valores na sociedade atual. Tudo o que é natural vira crime/repressão e tudo o que é artificial passa a ser o modo adequado a se viver. Basta ver nesse diálogo postado acima, onde é sugerido que as mulheres não amamentem seus filhos em espaços públicos pois ninguém é obrigado a ver, ou que se coloque um lenço por cima (a não ser que seja uma mulher gostosa, nesse caso pode).
Veja quanta podridão inserida num mesmo discurso:

- sexismo: uma mulher não pode amamentar seu filho no meio da rua pois ninguém é obrigado a ver esta cena. Engraçado que ninguém se opõe às revistas sexuais que são expostas em bancas, aos programas de TV que exploram a sexualidade de forma pornográfica em horários que pessoas de todas as idades têm acesso, o mais engraçado ainda é que ninguém se manifesta quando um homem sai nas ruas sem camiseta. Ora, também não sou obrigada a ver peitos peludos e barrigas de chop quando saio às ruas. Reprimir é a melhor forma? Vamos proibir porque tem gente incomodada com estas cenas? E quando tem um casal homossexual de mãos dadas nas ruas? Que pecado né? Vamos proibir também!! Afinal eu tenho o direito de não ver esse tipo de cena na minha frente. 

O problema (mais uma vez) é a mulher. Que seu corpo foi sexualizado, isso não resta dúvidas. E justamente por isso rola esse tipo de repressão.

- machismo: a mulher que amamenta um filho na rua na verdade tem a desculpa do filho pra poder mostrar seu corpo. É como dizer que a mulher só é estuprada porque não usa roupas adequadas (olha lá, mais uma vez a culpa é da mulher). 
Aliás, abrindo um parênteses, meu total apoio à Marcha das Vadias.



O que mais me revolta é ver a posição de várias mulheres machistas que concordam com a opinião destes seres. Percebo que as pessoas foram tão bem manipuladas que acabaram se tornando cegas e presas ao senso comum e não conseguem ser pessoas críticas e perceber que elas também são vítimas desse machismo/patriarcalismo/sexismo que impera em nossa sociedade. Preferem fazer parte da massa e se opor à libertação de sua própria escravidão.
Será que é tão difícil assim enxergar o óbvio??
Será que num rola se desprender dessa inversão de valores e perceber que o mundo não é tão mar de rosas assim??
A luta das mulheres é uma luta de todos. Antes de sair dizendo besteiras informe-se, e forme sua própria opinião. A TV não precisa falar por você. Não sei se te disseram, mas você pode ser livre em suas decisões.

Abaixo um poema do Bertold Brecht, como uma forma de convite à reflexão (e a luta)!
Um abraço à todos!!



“Primeiro levaram os negros” - Bertold Brecht

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”

Postado por Bah_